quinta-feira, 12 de abril de 2018

A Marcha em Palavras

Ontem estivemos em Auschwitz e hoje voltamos. Mas não parecia, nem de longe, o mesmo lugar. O dia, ontem, nublado, desenhava uma sombra sobre o vasto vazio da imensidão do campo. Hoje, fomos recebidos pelo sol, que parecia entender solenemente que sua mais importante função nesse dia era iluminar o sorriso dos jovens e aquecer o coração dos sobreviventes. Parecia entender que hoje é dia de lembrar desse lugar, dia de espalhar luz para o futuro.


Entendo que é um contrassenso, mas a melhor maneira de descrever a Marcha em palavras é declarar que não há palavras para descrever a Marcha. As palavras, aliás, como todo o resto, são quase inúteis para entender o que aconteceu aqui. Além disso, sei que cada lugar que visitamos hoje, cada passo, cada cantinho, teve um significado diferente para cada um - o que torna ainda mais difícil fazer um relato - não há aqui relatos objetivos. Para alguns, há marcha é um momento de alegria, para outros de reflexão ou tristeza.

Diante de tais obstáculos, espero poder transmitir ao leitor a alegria e a tristeza de participar da marcha. Que possa perceber a contraditória beleza deste local e deste dia no campo, com imagens tão inspiradoras (às vezes indescritivelmente belas) quanto complexas. Não posso deixar de dizer que me encanto muitíssimo com a maneira como o sol reflete sobre os jovens sorrisos que se movimentam com tanta vida pelo campo. A grama, o sol, a alegria de saber que há futuro e que estamos aqui - tudo isso é dolorosamente belo. Insuportavelmente belo.





  

Realmente parecia outro lugar. Quando chegamos, um mar multicolorido, dominado predominantemente por capas azuis, cobria o campo até onde alcançava a vista. Ao som do Shofar, a onda humana começou a se movimentar e tingiu de azul e branco a trilha que une os dois campos de morte - foram dois quilômetros de união e vibração até chegar a Birkenau - numa marcha colorida, tão diversa quanto seus participantes.


No caminho, mais uma bela cena, especialmente nos dias de ódio e intolerância que vivemos: muitos poloneses (não-judeus) saudavam os marchantes e cantavam canções judaicas. Passamos por lindas crianças que nos saudavam com sua bandeira e o pueril sorriso de quem não conhece o ódio.



Após a Marcha, uma bonita cerimônia teve lugar num palco armado no campo de Birkenau. (Esclareço que Aushwitz-Birkenau é um complexo gigantesco de cerca de 191 hectares. A Marcha da Vida vai desde Auschwitz I até o campo de Auschwitz II, conhecido como Birkenau). Foi em Birkenau que a maior parte doas assassinatos ocorreram. Nesse lugar hoje, ouvimos sobreviventes e tivemos a presença do presidente de Israel, Reuven Rivlin, e do presidente da Polônia, Andrzjei Duda.

Discurso do Presidente de Israel


Em seu firme discurso, o presidente de Israel lembrou os mortos e falou do futuro. Mas lembrou também que muitos, inclusive poloneses, colaboraram para que os nazistas levassem a cabo o genocídio e se beneficiaram dos assassinatos, usurpando bens de judeus. O assunto gerou grande controvérsia este ano, devido a uma nova legislação polonesa que objetiva proibir que se atribua à Polônia ou aos poloneses participação nos crimes nazistas.

Caminhamos muito, aprendemos muito e nos cansamos bastante. Mas saímos com uma sensação muito boa, de dever cumprido - sensação de que não somos mais os mesmos.

Um comentário:

  1. Apesar de ter acompanhado uma boa parte da transmissão ao vivo, não há nada que se compare a tua escrita, às imagens postadas por ti, Daniel. Sinto que escreves com prazer, com sentimento de dever cumprido, com conhecimento de causa e com orgulho de ser judeu.
    Que bom que tu nos proporciona a oportunidade de acompanhá-los.

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Em Solo Gaúcho

Pousamos em Porto Alegre. Acredito que esse é o último post desse blog. Ja vamos descer do avião. Nos vemos em instantes.