Um dia bonito, um tanto nublado, mas sob claro domínio da
luz, nos recebeu hoje quando chegamos a Auschwitz. É realmente desconfortável
sentir essa controversa sensação que mescla a beleza da paisagem com a feiura
do que ocorreu aqui. Tão desconcertante que até faz parecer que tudo o que
ocorreu aqui aconteceu em um outro mundo, que nada tem a ver com essa realidade. Mas aconteceu aqui.
Ao entrar no campo, percebemos o quanto ele é imenso. Na
realidade, Auschwitz não é um campo, mas um conjunto gigantesco de campos de
concentração, trabalho e extermínio. Os mais importantes campos desse conjunto
são Auschwitz I e Auschwitz II, também conhecido como Birkenau e foi justamente
nesse segundo que se deu a maior parte do mais terrível e sistemático genocídio
que a humanidade já viu.
O lugar é enorme e abriga hoje um museu. São dezenas
de pavilhões com objetos, documentos, explicações e, principalmente, vivências.
Documentação que comprova tudo o que houve e revela um dos lados mais cruéis
dos assassinos: fizeram tudo de modo frio, calculado, eficiente e ordenado.
Tiraram vidas de crianças cujos nomes eram elencados em planilhas com a frieza
de quem cuida da contabilidade de uma loja de móveis.
Caminhamos pelos pavilhões e fomos entender como funcionava essa
terrível máquina de morte. Vimos câmaras de gás, locais de "experiências
médicas" cruéis, objetos pessoais, fotos e listas de vítimas. Ouvimos
algumas das histórias.
Há muitos agravantes macabros para o que ocorreu aqui. O primeiro é a
mentira. Os nazistas, até os últimos momentos, enganavam cruelmente suas
vítimas. Separavam homens de mulheres, como se a separação fizesse algum sentido diante do mesmo destino ao qual eram enviados. Diziam-lhe que seria um banho, que deveriam lembrar-se bem o número do
cabide onde deixaram suas roupas para voltar. O segundo é a sistemática metódica.
A eficiência na máquina de morte, como se não se tratasse aqui de vidas
humanas. O terceiro é a desumanização - este sim tão terrível e tão real que
precisa ser constantemente combatido, ainda hoje. Principalmente hoje. Essa é
uma responsabilidade nossa - combater a desumanização do outro, daquele que é
diferente.
Tudo o
que aconteceu aqui só teve lugar porque os nazistas lograram desumanizar os
judeus - tanto na forma de viver como na forma de morrer. Ao chegar no campo,
eram despidos fisicamente e psicologicamente. Arrancavam-lhes as roupas e os
cabelos, mas também seus nomes e suas famílias. Tudo o que faz de uma pessoa um
ser humano.
Pois
todo mundo tem um nome. Pobres, ricos, feios e bonitos: todos tem nome. Até
animais de estimação, já que são queridos e importantes, possuem nomes
próprios. O judeu em Auschwitz não deveria possuir mais do que um número. E não
podia ter roupas, cabelos, pertences pessoais ou identidade. Resignar-se a ser
um zumbi sem expressão era a forma de sobreviver e de lutar e pouco parecia diferir
da forma de render-se e se entregar.
Os nazistas queriam, pois, a morte dos judeus, mas não
sem antes tirar-lhes a humanidade. Até mesmo depois da morte, os corpos eram
tratados como objetos e explorados sempre que pudessem render aos nazistas qualquer
valia - dos cabelos às obturações dentárias.
De certa forma, o que fazemos ao visitar a Polônia e os
campos é devolver-lhes suas identidades. Devolver a cada um sua humanidade e
seu nome. Ouvindo suas histórias, recordando quem foram, rezando por eles. Estamos
aqui para assegurar e fazer ouvir ao mundo que cada ser humano é um mundo
inteiro e cada vida será lembrada. Para que nunca volte a ocorrer.
O rabino Samson Rafael Hirsch, que viveu na Alemanha
até 1888 e, portanto, muito antes do holocausto, escreveu em seus comentários
sobre a Torá algo impressionante sobre o versículo "Os Egípcios
escravizaram os judeus com Farech (dureza)" (Exôdo 1:13).
Ele explica que a raiz da palavra Farech é desconhecida e não
aparece em outros lugares das Escrituras. De acordo com ele Farech (Lehafrich)
seria uma palavra aproximada para Lehafrid, que significa "separar",
"apartar". Segundo ele, os egípcios primeiramente apartaram os
judeus, tolheram seus direitos, quitando-lhes as prerrogativas de outros
cidadãos. Os tratavam de forma "apartada", como se fossem uma raça
inferior e não fossem humanos. Foi isso que permitiu que os egípcios pudessem
atirar os bebês dos hebreus no Nilo sem ter qualquer piedade. Primeiro
desumanizar para depois exterminar. O rabino escreveu isso 70 anos antes do
holocausto, mas sua visão sobre a humanidade não poderia ser mais realista.
Segundo ele, esse processo já aconteceu antes, mesmo que não tenha sido da
mesma forma que o Holocausto. É nosso papel impedir que aconteça de novo.
Destaco
aqui alguns pavilhões que marcam qualquer um que visita Auschwitz. O Pavilhão 27 foi transformado em uma moderna exposição, concebida e auspiciada pelo governo de Israel. A exposição foi inaugurada há apenas quatro anos. Lá, há um enorme livro, onde constam todos
os nomes conhecidos das vítimas da Shoá, recolhidos pelo Yad Vashem. Quase todos temos sobrenomes (ou conhecidos) que constam na lista.
Pavilhão 27
Pavilhão 27 - Livro de Nomes
Pavilhão 27 - Livro de Nomes
Há
ainda, nesse pavilhão, uma sala vazia em cujas paredes estão copiados a lápis
desenhos feitos por crianças durante o holocausto (muitas delas, do campo de Terezin). Cada desenho atravessa a
alma e atinge de forma lancinante o coração. Alguns retratam a vida em família,
festividades judaicas. Outros falam do amor pela mãe. Outros desenhos, que
jamais deveriam partir da pena de uma criança, retratam armas, forcas, arames
farpados. Infâncias que, como tudo o mais nesse lugar, foram roubadas.
Compartilho, abaixo, alguns desenhos nas paredes.
Passeio com a Família
Chanukiá na Mesa
Forca
Para Mamãe
Auschwitz
O
pavilhão abriga também uma mostra de filmes a respeito do judaísmo antes do
holocausto. Filmes tão diversos quanto os judeus. De religiosos e laicos, de
cidades e aldeias, ricos e pobres.
Vídeos da Vida Judaica antes da Shoá
Também
passamos pelo pavilhão que abriga as provas materiais dos crimes nazistas.
Toneladas de sapatos, cabelos humanos, malas, utensílios domésticos e diversos
documentos.
Vimos
Talitot - cada um pertenceu a um pai de família. Um pai que cobria seus filhos,
protegendo-os sobre o manto sagrado, enquanto ouvia atento as bençãos dos
cohanim. Em Auschwitz eram números. Vimos óculos, próteses, brinquedos e malas.
Coisas que temos em nossas vidas e que fazem parte de nossas identidades - tudo
fora confiscado. Só um ser humano tem pertences pessoais.
Em
Birkenau, conhecemos o pavilhão a "Sauna" onde os judeus eram
recebidos e vimos a impressionante quantidade de fotos confiscadas, com
milhares de rostos familiares desconhecidos. Foram trazidas porque importantes
para quem as trouxe. Filhos arriscaram suas vidas para esconder sob a roupa a
única imagem que possuíam de seus pais. Maridos que guardavam consigo uma
recordação ímpar de sua esposa de paradeiro ignorado.
Uma das paredes repletas de fotos encontradas no campo
Três gerações em uma foto
As fotos foram arrancadas pelos oficiais nazistas como se nada significassem - pois suas
vidas nada poderiam significar. Nada além de números.
Não é possível entender. Não é possível julgar. Mas é
preciso testemunhar. E foi o que fizemos: registramos, vimos, caminhamos sobre
seus dolorosos passos, mais de setenta anos depois.
Fizemos a leitura de alguns depoimentos, poemas escritos
por sobreviventes, cartas de ex-prisioneiros (nos próximos posts compartilharei
com vocês).
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