sexta-feira, 13 de abril de 2018

Lodz em Palavras

Estamos na estrada, a caminho de Varsóvia. Aproveito agora para contar um pouco sobre nosso dia até aqui.

Estivemos em Lodz (aqui, pronuncia-se Wudj). Nossa primeira parada foi o Radegast, a praça de deportação de onde foram deportados centenas de milhares de judeus do Gueto de Lodz para campos de extermínio. Há uma locomotiva da época. Atrás dela, vagões de gado com pequenas aberturas laterais, o suficiente para ventilar um pouco de ar, mas não para atenuar a sensação de clausura experimentada por quem entra.



Entramos no vagão. Nós somos apenas 26. E ficamos lá apenas por poucos minutos. Ainda assim, experimentamos o desconforto que o vagão proporciona. Nazistas forçavam nestes vagões, não raro, uma centena de pessoas. Sem pão e sem água. Sem banheiro, sem dignidade. Sem saber se viajariam por algumas horas ou por vários dias (e, às vezes, a viagem durava muitos dias). Não havia lugar para que todos se deitassem ao mesmo tempo.

Nesses vagões pais levavam seus filhos, por vezes, ainda bebês. Apinhavam-se nos cantos pessoas de todas as idades, confinadas como gado. Conviviam com os corpos dos que não resistiram, num apertado espaço fedorento, onde não havia banheiro ou privacidade. Idosos lutavam contra a fome, o frio ou o calor, alentados apenas pela esperança de que, talvez, quem sabe, aquele trem não os levaria para a morte, mas para algum campo de trabalhos ou outro destino - o que, com raras exceções, não acontecia.

Dentro do Vagão

(Para quem quiser conhecer essa triste realidade e seus dilemas, sugiro assistir "O Último Trem para Auschwitz", que conta a história de 688 judeus deportados de Berlin e sua viagem no trem).

De dentro do vagão, pessoas escreviam mensagens e, nas paradas, procuravam desesperadamente passar os bilhetes a alguém - um trabalhador da ferrovia ou um transeunte - na esperança de que fizesse o bilhete chegar a um ente querido para avisar que estava vivo e que estava "tudo bem". E se fosse possível escrever um bilhete dentro de um terrível trem como esse, o que escreveríamos? Quais seriam nossos desejos, nossas últimas palavras a quem amamos? A quem endereçaríamos nossas últimas palavras? A quem pediríamos ajuda?

Passamos ao lado de um monumento. Visto de fora, o monumento se assemelha a um longo trem, no qual estão estampados os anos da guerra e que é puxado por uma locomotiva que se parece a uma chaminé de um forno crematório. Por dentro, é um comprido túnel em cujas paredes estão expostas as listas de nomes dos deportados para a morte. As listas são, por si só, um testemunho da crueldade e da eficiência da máquina de morte nazista. Catalogavam, pesquisavam e ordenavam o transporte e a morte de milhões. A humanidade já havia presenciado massacres, guerras e chacinas. Mas nunca antes na história se orquestrou com tamanha racionalidade e de forma tão sistemática o assassinato de milhões. E, vale repetir constantemente, é nosso dever assegurar que nada que se assemelhe jamais volte a acontecer.



Monumento por fora

Monumento por dentro
Trabalho das Crianças

Trabalho das Crianças

Trabalho das Crianças

Monumento por dentro




Do Radegast, fomos para o cemitério da cidade - o maior cemitério judaico da Europa - onde aprendemos um pouco mais sobre os costumes relacionados ao cemitério, à dignidade do corpo e à santidade da vida.

Na tradição judaica há uma grande preocupação com a pessoa - a alma e o corpo. Com cuidado muito especial a Chevra Kadisha cuida individualmente de cada pessoa - rico ou pobre, sábio ou tolo - com humanidade e dignidade. Se vimos, nos últimos dias, o esforço sádico dos nazistas para desumanizar os judeus, a preocupação aqui é diametralmente oposta. Conhecemos a sala de Tahará e velório - a valorização da vida, mesmo após a vida.

Casa de Tahará (exterior)

Casa de Tahará (interior)

Aprendemos também no cemitério sobre a diversidade dos judeus de Lodz, em sua maioria trabalhadores de fábricas e industrias textêis, muidos judeus chassídicos  e uma família considerada das mais ricas da Polônia no auge da indústria em Lodz - os Poznansky.

Vimos seu imenso mausoléu, adornado no interior por dois milhões de ladrilhos de vidro, trazidos especialmente de Veneza. Um edifício imponente, incomum em cemitérios judaicos que costumam ter por regra que todos os túmulos (por recato) devem ter tamanhos parecidos.


Cemitério de Lodz

Túmulo de Poznansky

Túmulo de Poznansky - Ladrilhos internos


Na entrada do cemitério estão enfileiradas dezenas de lápides, encontradas em vários cantos e cuja verdadeira localização (do túmulo) é desconhecida. Na verdade, há milhares delas e um pequeno conjunto foi posicionado diante do muro para representar todas.

Neste cemitério há um projeto que já dura anos, do exército de Israel, para identificar e preservar a memória dos milhares de judeus que morreram no gueto de Lodz e não receberam uma Matsevá. Soldados vem para cá todos os anos, aprendem a história do lugar e produzem placas para os assassinados aqui com a maio quantidade de dados que conseguem recolher - nome, data de nascimento, data de falecimento. As vezes, conseguem apenas identificar um nome e, por vezes, nem isso. Todos os óbitos foram documentados pelos judeus que viveram no gueto, registraram os óbitos e enterraram os corpos, mas não alcançaram o "luxo" de colocar uma matsevá (lápide) com seus nomes sobre o túmulo. É o trabalho inverso ao realizado pelos nazistas - trata-se de humanizar e "devolver o nome" a essas pessoas.

Durante a guerra, os judeus de Lodz, apesar de confinados no Gueto, lograram enterrar todos os seus membros que faleceram ou foram assassinados. Dos quase 250 mil judeus de Lodz, pouco mais de 10.000 sobreviveram ao holocausto. O Gueto de Lodz foi um dos mais organizados, graças a uma controversa política do seu Judenrat, liderado pelo polêmico Chayim Rumkovsky. Ele era encarregado de fazer o gueto produzir - utilizando até mesmo o trabalho das crianças. Os "não produtivos" não recebiam para comer. Por outro lado, foi o gueto que mais tempo funcionou - justamente por ser produtivo,  durante a guerra. Eles produziam principalmente uniformes para os nazistas e assim tiveram sobrevida. Enquanto os guetos de Cracóvia e Varsóvia já haviam sido totalmente "liquidados" em 1943, o gueto de Lodz sobreviveu até outubro de 1944. Mais alguns meses e muitos judeus, talvez 150 mil, teriam se salvado da morte (mais tarde contarei mais sobre isso).

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Em Solo Gaúcho

Pousamos em Porto Alegre. Acredito que esse é o último post desse blog. Ja vamos descer do avião. Nos vemos em instantes.