sábado, 14 de abril de 2018

Shabat em Varsóvia

Volto agora para contar um pouco sobre Varsóvia e o Shabat que passamos.

ATENÇÃO - Alerta de Textão!

É difícil descrever a sensação de passar um Shabat em Varsóvia. Ir na sinagoga e imaginar quantas gerações passaram por este lugar e entoaram as mesmas canções nos últimos mil anos.... Imaginar como eram as ruas da cidade numa sexta feira de tarde, quando o cheiro das chalot tomava conta de todo o bairro. Haviam aqui cerca de 300.000 judeus (um terço da cidade). Conta-se que somente na Rua Chlodna viviam algumas dezenas de rabinos...

Em Varsóvia não sobrou muito dos edifícios da época da Guerra - a cidade foi completamente arrasada pelos nazistas, de modo que muita coisa fica para a imaginação. Após a guerra, não foi uma prioridade para o governo comunista preservar ou reconstruir edifícios históricos. Ao contrário, aproveitaram a cidade em ruínas para fazer estradas largas que facilitassem a vinda de tanques soviéticos, caso se fizesse necessário. O legado judaico da cidade não era uma definitivamente prioridade. Nos últimos anos, no entanto, o governo polonês tem investido, em parceira com filantropos judeus, na preservação da história e da cultura judaica na Polônia. Como resultado, há hoje um moderno museu judaico em Varsóvia e cada vez mais lugares são preparados para visitação, contando a história da cidade e dos judeus aqui.

Gueto de Varsóvia após a Guerra


Bom, começo pelo começo.
  
Ontem à noite, fomos ao Kabalat Shabat na sinagoga de Noczyk (leia-se Nojik), a única que restou de pé na cidade após a guerra. Como disse antes, é emocionante pensar que recebemos o Shabat no mesmo lugar onde, por gerações, milhares vinham derramar seus corações. Olhar para suas paredes e pensar tudo o que elas já assistiram - para bem e para mal.

Hoje, a sinagoga continua ativa, transmitindo um clara mensagem: "Am Israel Chai" - O povo de Israel vive. Não são mais centenas de milhares de judeus em Varsóvia, mas isso não apaga o significado do lugar. Hoje, em toda a Polônia não há mais do que 8 ou 10 mil judeus. Ainda assim, a sinagoga continua ativa e viva, aberta todos os dias do ano e reunindo pessoas do mundo inteiro que vem aqui conhecer o passado, vislumbrar o futuro e manter viva a memória dos que se foram.

Fomos jantar junto com os alunos do Renascença: músicas, histórias e muita diversão em torno de uma mesa de Shabat. Contamos histórias, cantamos e jogamos vários jogos. Foi um momento de integração entre os alunos. Uma noite muito especial.

Pela manhã, acordamos um pouco mais tarde do que de costume e saímos para conhecer a cidade. Primeiro, fomos conhecer o que sobrou do Gueto. As ruas mudaram muito desde a época da guerra. A cidade foi levada a ruínas após levantes contra os nazistas - o famoso levante do Gueto, coordenado por grupos jovens judaicos e pelo famoso Mordechai Anilewicz e também o levante dos poloneses contra a ocupação nazista. Como resultado de seus heroicos esforços, pouco sobrou na cidade ao fim da Guerra. Na rua Mila 18, onde ficava o bunker da resistência, há hoje apenas grama. 

Após a chegada dos soviéticos, a cidade, que perdera também mais da metade dos seus habitantes, teve de se reerguer. Os russos, no entanto, patrocinaram a construção de uma cidade diferente da Varsóvia pré-guerra, trazendo para a cidade a influência da arquitetura soviética e apagando a maior parte dos vestígios das ruínas dos edifícios do que antes era o Gueto de Varsóvia. O entulho que sobrou foi soterrado e serviu como alicerce para as novas construções, elevando, em muitos lugares, o nível do solo. 

(Para quem se interessar, há aqui imagens de Varsóvia logo após a Guerra. É impressionante o que aconteceu com a cidade.)

Por isso, pouco sobrou do Gueto que, entre os anos de 1940 e 1943, os nazistas instituíram e para o qual todos os judeus da cidade e das cercanias eram obrigados a se transladar - o Gueto de Varsóvia. Somente um pedaço de muro aqui e outro ali e alguns poucos prédios que ficaram de pé.

O Gueto era enorme, o que torna ainda mais terrível imaginar a dimensão da tragédia. Seus muros cercavam 2.1% da área da cidade, onde foi confinada 30% da população. Onde antes moravam dezenas de milhares de poloneses (judeus e não-judeus), passaram a viver quase meio milhão de judeus. A superlotação, a fome, a miséria e a doença que mataram centenas de milhares faziam do Gueto um lugar que sequer podemos imaginar. As ruas estavam sempre cheias e movimentadas, pois era impossível passar o dia numa casa onde se apertavam dezenas de pessoas. A maior parte da comida do Gueto chegava através de contrabandistas, em geral crianças (que podiam esgueirar-se por aberturas no muro), pois a quantidade de ração diária que os nazistas deixavam entrar no Gueto estava calculada para não ser suficiente.

Daqui de Varsóvia, 300 mil judeus foram deportados para a morte em Treblinka e em outros campos e assassinados somente porque judeus. Centenas de milhares de poloneses da cidade também foram assassinados pelos nazistas - é possível enxergar a sombra que o Holocausto e a guerra lançam sobre Varsóvia até hoje e basta um olhar mais atento para perceber que há dezenas de monumentos e marcos históricos espalhados pelas ruas, a maioria com o objetivo de preservar a memória de acontecimentos terríveis e que serão eternamente lamentados pela humanidade.

Depois, fomos conhecer o novíssimo e fantástico museu judaico de Varsóvia, o museu Polin. Inaugurado em 2014, o museu recentemente recebeu o prêmio de melhor museu da Europa em 2016 (e olha que a Europa tem excelentes museus). A exposição, muito rica em conteúdo e recursos interativos, conta a história do judaísmo na Polônia durante quase mil anos. O museu também surpreende porque o foco não é o Holocausto, mas a vida judaica na Polônia em todas as épocas. Réplicas de lugares, galerias sobre os diferentes períodos, a possibilidade de pesquisar sobre várias personalidades e muito mais - tudo cercado de uma arquitetura moderna, onde cada ambiente transmite também uma mensagem.

Museu Polin - Museu Judaico de Varsóvia

Voltamos para almoçar e descansar um pouco. Depois, saímos novamente, para conhecer a Cidade Velha (Stare Miasto) de Varsóvia. Na verdade, não é exatamente uma cidade velha, pois a parte antiga da cidade (como todo o resto) foi devastada na guerra e a cidade velha que vimos hoje foi construída no final do século 20 (a reconstrução terminou em 1984). De qualquer modo, a cidade foi reconstruída seguindo o estilo da cidade medieval e é muito bonita - como estar em um cartão postal.

Cidade Velha após a Guerra

Cidade Velha Hoje

Caminhamos pela cidade, conhecemos seus marcos históricos e ouvimos as histórias de nosso guia. Então, já bastante cansados, voltamos ao hotel para jantar e fazer Havdalá. Ainda fomos ao Shopping próximo ao Hotel e que é o mais moderno da Polônia. Abaixo uma imagem do Shopping.



Em resumo, foi um Shabat inesquecível!

Daqui a pouco eu volto!

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Em Solo Gaúcho

Pousamos em Porto Alegre. Acredito que esse é o último post desse blog. Ja vamos descer do avião. Nos vemos em instantes.