Tivemos uma manhã ensolarada. O clima conspira de modo a nos preparar, gradativamente, para o calor que nos espera semana que vem em Israel. Desse modo somos poupados do desgaste ocasionado pelas mudanças bruscas de temperatura. Aos poucos, o sol, tímido no início da manhã, passou a dominar o dia. Quem se vestiu com camadas, escolado em efeito cebola, hoje levou vantagem em termos de conforto.
Antes de ir a Auschwitz, dedicamos nossa manhã a conhecer um pouco de Cracóvia e seus arredores, especialmente a parte judaica da cidade. Cracóvia é uma bela cidade e, ao contrário de Varsóvia, não foi totalmente devastada durante a guerra. Os nazistas escolheram a cidade para ser a capital do "Governo Geral" nazista na Alemanha. Essa escolha teria como objetivo também humilhar os poloneses - uma maneira do ocupante dizer ao país dominado: "Sua capital não é Varsóvia, a capital da Polônia é onde NÓS dissermos que é". Essa escolha provavelmente influenciou os nazistas a manter a cidade de pé - afinal de contas, não queriam viver em uma cidade em ruínas. Portanto, derrubar as sinagogas não seria conveniente.
Além disso, parece que os nazistas também levaram em conta a história da monarquia polonesa que se instalara aqui no passado. Hans Frank, chefe do governo geral nazista na Polônia sentou-se no trono do castelo real de Wawel, símbolo da glória polonesa. De todos os modos, os nazistas não queriam viver em uma capital devastada. Preferiam que a arte, os prédios e estrutura da cidade fosse preservada, de modo que poupou-a durante os ataques que levaram à conquista da Polônia em 1939 (se compararmos ao pesado bombardeio que lançaram sobre Varsóvia).
Cracóvia
Cracóvia - Wawel
Deste modo, as casas dos judeus, as sinagogas e tudo mais na cidade foi relativamente preservado. Por outro lado, os alemães queriam uma Cracóvia judenrein - "limpa de judeus" - de maneira que os judeus são expulsos de suas casas e forçados a deixar a cidade. Numa segunda fase, são levados a cruzar o rio para o Gueto do outro lado. Este processo pode ser bem percebido no início do filme "A Lista de Schindler". No caso, o filme mostra, logo no início, que o próprio Schindler, como outros alemães, recebeu uma casa confortável da qual foi expulsa uma rica família judia, forçada a sair sem levar quase nada. (à propósito, o filme também documenta bem a "liquidação" do Gueto).
Portanto, o gueto aqui não ficava na zona mais habitada pelos judeus, mas do outro lado do Rio Wisła (pronuncia-se Vístula). Os judeus foram obrigados a cruzar a ponte, carregando seus pertences em carrinhos ou nas costas, para o outro lado.
Na entrada do gueto, no local onde fora instalada a terrível praça de deportação há hoje um monumentos com cadeiras vazias. Em frente a elas, a farmácia de Thadeusz Pankewicz, um justo entre as nações, que se arriscou para salvar muitas vidas de judeus no gueto.
Monumento com as cadeiras vazias - ao fundo, a farmácia de Thadeus Pankiewicz
Monumento das cadeiras vazias
Cadeiras Vazias
Fomos visitar os fragmentos que restaram do muro do Gueto. Os nazistas, cinicamente, determinaram que o muro (construído com o dinheiro dos próprios judeus, que foram forçados a pagar pela construção de sua "zona residencial") deveria ser construído num formato que lembra as lápides de um cemitério judaico.
Nós percorremos hoje, o caminho inverso ao trilhado pelos judeus. Saímos do gueto e atravessamos a ponte em direção ao bairro judeu. Fomos conhecer a vida judaica antes da guerra. É importante lembrar sempre que a Polônia não é somente o lugar que lembramos durante a guerra, também foi o palco de uma próspera vida judaica durante mil anos - e também estamos aqui para conhecer vida.
A história dos judeus aqui é muito antiga. Se estabeleceram num distrito separado, chamado de Kazimierz, quando contavam com a proteção de Casimiro, o grande, rei da Polônia. De acordo com o que contam, Casimiro casou-se com uma judia, chamada Ester e estendeu sua boa vontade a todos judeus do reino. Gozavam de privilégios e do direito (um luxo para os judeus naqueles tempos) de ter autonomia.
Os judeus eram proibidos de morar em Cracóvia, por isso Casimiro, em 27 de Março de 1335 proclamou a zona de Kazimierz como uma cidade autônoma, onde era permitido aos judeus viver e prosperar. Em 1362, mandou construir muralhas de defesa para o distrito. Casimiro ficou conhecido pelos judeus como um grande protetor.
Nossa primeira parada em Kazimmierz foi o Alt Shul - a sinagoga mais antiga da Polônia e uma das mais antigas da Europa, datando do século 15 (mais antiga, portanto, do que o Brasil). A sinagoga é hoje um museu.
Em frente ao Alt Shul
No interior do Alt Shul
Pelas Ruas de Kazimierz
De lá, fomos para a sinagoga do rabino Moisés Isserles, o Remá. Ele viveu aqui no século 16 e foi um dos maiores sábios do povo judeu, autor do maior código da lei judaica para os Ashkenazim e que foi incorporado ao Shulchan Aruch. Sua obra influencia até hoje a vida de milhões de judeus cotidianamente.
Visitamos também o cemitério anexo à sinagoga, onde o sábio e outros importantes rabinos estão enterrados. Lá, dizem, também está enterrado Yossele Kamtzan Kadosh (algo como "Yossele, o santo pão duro"), personagem de uma famosa história de Shlomo Carlebach. Mais tarde, quando houver mais tempo, conto essa história.
Lá, no interior da antiga sinagoga, acompanhamos um grupo de chassídicos que estavam terminando a reza matinal.
Sinagoga Isaac
Sinagoga Isaac
Sinagoga Isaac
Ainda vimos a sinagoga Tempel, certamente a mais luxuosa de toda a Polônia atualmente.
Por todos os lados, respira-se judaísmo. As sinagogas estão de pé e muitas casas são originais - em muitas delas é possível ver as marcas das mezuzot de seus antigos donos. A atmosfera é contagiante. Todos os anos, um grande festival de música judaica tem lugar nas ruas do bairro. Nos cercam por todos os lados palavras em hebraico, edifícios históricos, locais turísticos e restaurantes típicos. Kazimierz é um lugar para viajar no tempo.
Casa com a Marca de Mezuzá na Porta
Pelas ruas de Kazimierz
Pelas ruas de Kazimierz
Pelas ruas de Kazimierz
Pelas ruas de Kazimierz
Pelas ruas de Kazimierz

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