Sei que os leitores desse blog aqui recorrem em busca dos sorrisos de seus queridos nas fotos e com o intuito de verificar que estão bem nutridos e corados. Mas não posso me furtar de compartilhar também algumas palavras (na verdade, até posso, mas gosto de compartilhar com vocês...) sobre o que vivemos neste primeiro dia.
As imagens (aliás como são belas as imagens dessa viagem!) transmitem muito, mas a palavra, como sabemos, tem outro poder. A palavra cria. Transmite impressões, medos, sensações, odores. Acrescenta um tempero, de quando em vez, ao que é concreto, trazendo a ponderação e os filtros da percepção para a arena. Então, caro leitor, sempre que possível e que o tempo permitir, relatarei aqui um pouco da nossa experiência, ciente das limitações do vernáculo que, não raro, tornam impossível explicar o que sentimos ao lidar com a Shoá, especialmente depois de estar na Polônia.
Primo Levi dizia que o idioma precisaria ser alterado após o holocausto se a guerra durasse mais. Pois a palavra "fome", que usamos quando desejamos repetir o prato, não descreve o que sente alguém que não come há uma semana. A palavra "frio", muito utilizada nas noites frescas de Porto Alegre, não descreve o que sente alguém que é forçado a sair de noite, no inverno polonês, exposto à 20 graus negativos vestindo apenas uma camisa de flanela. Não há palavras humanas para descrever o que ocorreu aqui durante a guerra. Palavras também tem suas limitações. Sem embargo, são as ferramentas que temos, principalmente à distância que nos separa.
Bom, então vamos lá.
Treblinka foi um terrível campo de extermínio, projetado para assassinar com eficiência e exterminar rapidamente os judeus da Europa, em especial a comunidade de Varsóvia e redondezas. Lá pereceram cerca de 912.000 judeus - 300 mil deles vieram de Varsóvia.
Escutamos de nosso guia, o Moshê, algumas histórias sobre o campo.
Ao contrário de Auschwitz e de outros campos de trabalho, Treblinka fora desenhado somente para assassinar. Aqui não haviam trabalhos forçados, salvo para aqueles que eram obrigados a desempenhar as tarefas necessárias para o extermínio de seus irmãos. Barbeiros - que cortavam os cabelos das mulheres antes que seguissem para as terríveis câmaras de gás - e dentistas, que arrancavam dentes de ouro e obturações metálicas daqueles que saíam das mesmas, além, claro, dos responsáveis por carregar os corpos e buscar valores nas roupas dos prisioneiros que chegavam e, invariavelmente, traziam escondidos em suas vestes tudo o que podiam ter de valor.
Aqui desembarcavam inocentes vítimas que, agarrando-se a suas esperanças e fé, acreditavam que encontrariam alguma chance para trabalhar e salvar-se durante a guerra. Mal sabiam que seus algozes, com premeditada crueldade, haviam dissimulado com perfeição uma estação de trem, uma plataforma de desembarque e um caminho que indicava um corredor que, na verdade, os levaria para o corredor dos céus - o Himmelstrasse - que os conduziria para a morte. Homens, mulheres e crianças, iludidos, preocupados em salvar os seus, foram levados com maldade e empurrados com desprezo para, despidos de tudo, marchar para morte.
Os nazistas pensaram em tudo com frieza. A falsa estação tinha um guichê falso, placas, flores, tudo. Tinha até mesmo um relógio falso, de 70 centímetros de diâmetro, pintado na parede por ordem de Franz Stangl. Pois toda estação de verdade tem um relógio. Não queriam que as vítimas percebessem nada de diferente. O relógio, porém, marcava sempre 15 horas. Os nazistas fizeram o tempo parar em Treblinka. Assim, buscavam acalmar os que chegavam e enganá-los até que não houvesse mais chance de qualquer revolta. Os assassinos estavam cientes do que faziam, e o faziam da forma mais eficiente e organizada possível.
Os próprios nazistas, ainda durante a guerra, desmontaram o campo e tentaram destruir todas as evidências da terrível indústria de morte que ali havia sido instalada. Por isso, não é possível hoje ver nada do que fazia parte do campo. No lugar onde havia o campo de extermínio, hoje existe um museu e monumentos de pedra, com mais de 17 mil monolitos, espalhados por todos os cantos, com os nomes das comunidades das quais foram deportados judeus para morrer em Treblinka. Cada pedra representa um lugarejo, uma cidade, uma aldeia de onde centenas, milhares ou miríades de judeus foram arrancados de seus lares e de seus amores para uma morte prematura, cruel e impiedosa.
Compartilho com vocês um poema de Wladyslaw Szlengel, poeta polonês morto no levante do Gueto de Varsóvia em Abril de 1943 a respeito de Treblinka. O poema foi traduzido do polonês ao inglês por John Novak e Halina Birenbaum e para o português, em tradução livre, por este que vos escreve.
WLADYSLAW SZLENGEL
A Pequena Estação Treblinka
Na linha de trem Tluszcz-Varsóvia
A partir da estação leste de Varsóvia
A ferrovia parte
E segue em frente...
E, às vezes, a jornada dura
Cinco horas e três quartos
E, às vezes, ela dura
Toda a vida até a morte...
E a estação é bem pequena
E lá crescem três araucárias
E há apenas uma simples placa
Aqui é a estação Treblinka
E não há nenhum caixa
Nenhum carregador de malas
E não por um milhão se pode adquirir
Um bilhete de retorno...
Ninguém está te esperando na estação
Não há acenos nem lencinhos
Apenas o silêncio reina
E cumprimenta com um surdo vazio.
E o pilar da estação segue em silêncio
E as três araucárias seguem em silêncio
E as inscrições na parede seguem em silêncio
Aqui é a Estação Treblinka
E apenas se vê pendurado
(Somente uma peça de propaganda)
Uma desgastada placa que diz
Queimado a gás.
Se aqui, milhares de km de distância, me sinto emocionado, tenho uma pequena percepção do que estes pequenos seres, com idade entre 15 e 17 anos, estão sentindo. Inestimável. Assim como a sua capacidade de abastecer o blog. Parabéns, parabéns, parabéns, e muito obrigado por tudo.....
ResponderExcluirQue emoção! Aprendizado incrível, esse blog é maravilhoso.
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